A lição chinesa (II)

Desde a sua excitante entrada na economia mundial, a China é escrutinada por muitos. No Ocidente, em especial, porque tentamos compreender e justificar o sucesso imprevisível do regime comunista autoritário. De facto, desde o boom económico iniciado por Deng Xiaoping nos anos 90, a China cresce a velocidades que o Ocidente nem sonha alcançar. No entanto, depois de 20 anos de progresso estonteante de desenvolvimento, a China enfrenta agora desequilíbrios económicos, uma desaceleração no crescimento, uma população em constante crescimento, e um fogo unificador da nação que desaparece com o desapego ao Marxismo-Leninismo. Todas estas questões estão a ser endereçadas pelo actual presidente chinês, Xi Jinping, com políticas domésticas e externas denominadas de Rejuvenescimento (da Nação Chinesa) e Harmonia (dentro e fora da China).

Se na Europa vemos nacionalismo étnico baseado nos valores liberais, e nos Estados Unidos da América vemos a ideologia ‘boomer’ voltar com um presidente “America First, Israel Second”, na China vemos uma linha de ‘Primeiro o Partido’, sendo que a prioridade de Xi, sendo o chefe de um regime autoritário, é manter-se a si e ao seu partido no poder. Numa era de capitalismo global, isto significa que a ideologia comunista já não é a única força coesiva do suporte ao Partido Comunista Chinês (PCC). Especialmente se considerarmos que se espera que a economia da China pare de crescer… eventualmente. Em suma, o milagre económico da China tem uma data limite, e Xi sabe disso. Por isso é que actualmente vemos uma mudança no nacionalismo chinês: de uma coesão nacional através de um nacionalismo baseado no “sucesso” de uma ideologia, para uma baseada na cultura e na tradição, especificamente na tradição filosófica e ética de Confúcio. Estamos neste momento a aprender como um líder consegue transformar a identidade nacional através de um ‘rebranding’. Vemos, portanto, Xi Jinping a jogar com as palavras usadas há 2000 anos por Confúcio e os seus filósofos posteriores para consolidar um novo nacionalismo chinês que vai além do comunismo. Assistimos a um encontro entre filosofia e nacionalismo. A um romance entre Confucionismo e Comunismo.

Depois de Mao Zedong destruir tudo o que fosse da ‘Antiga China’ através da campanha dos Quatro Velhos (costumes, cultura, hábitos e ideais) e da Revolução Cultural, foram precisos quase 30 anos para o Confucionismo sair do armário. Xi Jinping está a seguir o que Hu Jintao, o seu predecessor, começou: uma redescoberta da Tradição chinesa, profundamente gravada na filosofia de Confúcio. Estamos a assistir a uma ‘Renascença chinesa’, hoje denominada de Rejuvenescimento Nacional. Isto envolve uma glorificação do passado, uma recolecção do que foi a cultura chinesa durante milhares de anos para unificar os chineses de todo o mundo (especialmente os milhões de chineses na China). A desunião que Xi quer antecipar, que podemos considerar ser simplesmente indiferença, é uma consequência da modernização económica que levou ao atomismo e à ansiedade psicológica causada pela competição económica e pela busca de status social, criando uma geração que já não sabe o que é ser-se chinês. Aqui entra uma nova política de Xi: “aprendizagem nacional”. Apesar de ainda rudimentar e pouco definida, a aprendizagem nacional envolve ensinar às gerações futuras a base da identidade nacional através do estudo dos clássicos. O nacionalismo confucionista começa, então, com uma instauração na matriz intelectual da nação de que a China não é a China sem os princípios de Confúcio.

Hoje, o confucionismo baseia-se principalmente em levar uma vida modesta e praticar as artes da paz (não tratar os outros de maneiras que não nos trataríamos a nós próprios), e, principalmente para Xi, a visão do ser individual como uma recolecção de relacionamentos. Esta visão apresenta-nos uma visão do ser como não existindo fora dos relacionamentos com os outros, porque o ser humano é um ser social. O confucionismo tem um tipo particular de universalismo em que se vê o indivíduo como inexistente mas, ao mesmo tempo, existindo em todos, desde a sua família, aos seus amigos, à sua comunidade, à sua nação e por fim ao resto do mundo (tianxia). Foi descrita por Zhu Xi in “A grande Aprendizagem” (1130-1200 d.C.).

Este é o pensamento principal com que Xi quer redefinir a cultura Chinesa que, apesar de ainda evidentemente comunista, começa a mudar. Vemos este seu empenho nos seus discursos, principalmente quando fala do ‘Sonho chinês’. Este sonho de Xi Jinping consiste em reconstituir a grandeza do povo chinês através do rejuvenescimento e prosperidade doméstica, bem como no desenvolvimento e inovação para uma sociedade ordeira e harmoniosa. Onde o nacionalismo liberal vê apenas o conceito abstracto de nação como pilar fundamental de organização social, este ‘nacionalismo com características chinesas’ explora o desenvolvimento em vista do tianxia.

É interessante ver como uma nação milenar como a China se reinventa: voltando às raízes. Voltando à sua mais profunda Tradição. Na lição chinesa que o código penal da Dinastia Qing nos oferece, vemos como as relações com os outros estão estruturalmente desenhadas para, se algo não funciona de acordo com a norma, se aplicar uma pena que seja eficaz em dissuadir comportamentos desviantes. Nesta lição chinesa, vemos como Xi Jinping procura redesenhar o pensamento colectivo da China através de um manual de instruções com 2000 anos sobre como nos relacionarmos.

E Portugal? E nós? Podemos também procurar o nosso rejuvenescimento nacional? Temos onde procurar uma solução para um problema (o da indiferença social) que para Xi ainda é novo, mas que para nós já é transversal a todas as faixas etárias? Seria um bom exercício a fazer-se: além da Igreja Católica, procurar no coração da cultura portuguesa uma matriz psicológica que possa ser imposta na sociedade em geral de modo a redireccionar os corações dos cidadãos na direcção da concórdia, da justiça, do direito e da paz. Será isso possível? Talvez devamos aprender com os chineses.



“Se um país não celebra o seu pensamento e a sua cultura, se o seu povo perde a alma, não interessa qual o país ou nação, não se conseguirá pôr de pé.” – Xi Jinping

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