O porquê da Aristocracia

Alguns leitores podem ficar confusos e chocados quando, no nosso manifesto inicial, nos declaramos muito directamente como antiparlamentaristas e antidemocráticos, favorecendo uma forma de governo tradicional: a da monarquia orgânica. O ponto que frisei no post anterior é de que os governos democráticos (especialmente as repúblicas parlamentares) são na maior parte das vezes mais intrometidos, ofegantes, expansivos e tirânicos que as monarquias autocráticas e outras formas tradicionais de governo presentes, principalmente, na Velha Europa.

Obviamente que isto parece contra intuitivo para aqueles que, como a maioria das pessoas que por agora vasculham o espaço digital, foram educados em sistemas modernos de democracia liberal e que experimentaram a força esmagadora da propaganda do statu quo estabelecido na nossa sociedade. A Democracia, como é apresentada, com mel e rosas, é toda a esperança da humanidade, enquanto que os aristocratas e monarcas são vistos como, na melhor das hipóteses, idiotas antiquados, e na pior, um mal capaz de genocídios inimagináveis que deve ser cortado pela raiz.

Então porque é que há pessoas que, como eu, se sentem confortáveis em argumentar contra a Democracia, sabendo que estão no extremo oposto da visão da maioria da população? Bom, de forma sintética, é porque a história mostra-nos que a propaganda não passa do que realmente é – uma pretensa motivada por razões ideológicas que não é julgada pelos factos da longa experiência humana de se tentar governar.

Reafirmo o que escrevi anteriormente – a Monarquia Orgânica é mesmo mais autoritária e, ao mesmo tempo, mais livre, no sentido prático da palavra, quando aplicada às massas das baixas classes.
Sob sistemas tradicionais de autoridade como vistos na Europa medieval (e também noutros sistemas semelhantes, como, por exemplo, o Japão feudal), o povo experimentava menos interferência e, ao mesmo tempo, menos desgovernança “oficial” que os homens debaixo dos sistemas demoliberais actuais. Isto acontecia apesar de terem menos “liberdade política” (i.e. a capacidade de tomar decisões políticas e de exercer poder pessoal e/ou institucional) que os participantes das sociedades democráticas.

Deve-se isto à natureza estrutural destes dois tipos de sistema de governo.

No sistema tradicional, a ordem hierárquica natural é mantida. Nesta ordem, a classe aristocrática exerce a sua função de liderança, tanto no domínio militar/político, como no domínio intelectual/espiritual. Num sistema assim ordenado, a aristocracia tem o dever de proteger e guiar o campesinato tanto como o povo tem a obrigação de obedecer e seguir a liderança dos seus aristocratas. Isto deve-se à organicidade do sistema: a natureza recíproca e interdependente destas lealdades mútuas que existem nos sistemas tradicionais molda-as num sistema unificado e holístico, mutuamente dependentes umas das outras. Tal denotou de Tocqueville, forte apoiante da democracia:

“A Aristocracia fazia uma cadeia entre todos os membros da comunidade, desde o camponês ao Rei; a democracia quebra essa cadeia, e danifica cada laço nela existente” – de Tocquevile

Parte disto envolvia mitigar o poder do Rei (que era primus inter pares entre a classe aristocrática), contra balanceando o poder executivo do rei com a própria autoridade aristocrática nas suas esferas e domínios. Isto porque as leis impostas no povo poderiam interferir com os privilégios, direitos, ou capacidades de acção da nobreza, ou alterar os laços de lealdade entre nobres e os seus súbditos.

Quando os aristocratas têm poder (em vez de apenas dinheiro ou nome), podem e servem de mediadores de poder, protegendo o povo do Rei, tal como escudando o Rei do povo. Isto era verdadeiramente o que se chama de pesos e contrapesos, porque tinha na base da sua aplicação, o verdadeiro poder, e não uma confiança cega em documentos de papel que restringem os actores políticos.

Vê-se assim, a olhos vistos (mas não de forma surpreendente) que este sistema só começou a cair na Velha Europa quando a classe burguesa começou a sua ascensão ao poder, no século XIV, o que representou uma inversão na classe hierárquica natural. Como resultado, o poder monetário foi gradualmente erodindo e substituindo a aristocracia tradicional, movimento esse que se acelerou no século XVII. Duas mudanças sociopolíticas actuaram, levando a uma compreensão distorcida do papel da aristocracia na sociedade.

Primeiro, a ascensão mercantil e burguesa começou por criar uma base de poder urbana e separada da base tradicional, uma base que era cada vez menos afectada pelas corporações locais e sistemas de montados da nobreza. Este capitalismo incipiente rompeu os laços das lealdades recíprocas, efectivamente subjugando a classe trabalhadora à burguesia, sem as restrições tradicionais. O abuso burguês sobre o trabalho e o descuido face aos gastos e sobras produzidas pela indústria medieval (curtumes, cervejarias e outras operações) levaram a uma desordem social manifesta nas violentas reformas institucionais e religiosas.

A classe aristocrática respondeu, por fim sem sucesso, impondo restrições na classe mercantil sob forma de leis e regulamentações suntuárias sobre os gastos e efeitos ambientais, no âmbito de mitigar os efeitos desta nova força económica. É de notar que muitas das violentas resistências das várias instituições democráticas são descendência directa deste capitalismo liberal clássico, e do seu ódio pela força, poder e regulamentação do governo. Regulamentações essas que não eram mais que formas de anular os efeitos perversos que este tipo de economia trazia à ordem em causa.

A segunda mudança ocorreu à medida que o poder económico destruía e subjugava as capacidades tradicionais da nobreza genuína. Como resultado, criou-se um vácuo de poder, preenchido por uma ascendente e intoxicante dominância do sector burguês sobre o governo. Um caso evidente foi o rumo da Casa do Tudor em Inglaterra. À medida que a nobreza possuidora de montados se tornava cada vez mais marginalizada nas cortes, os novos-ricos entravam nos ouvidos do Rei. Estes comerciantes usaram o seu poder para minar e destruir a aristocracia, encorajando a implementação duma monarquia absoluta (o que aumentava as suas vantagens, como preferidos do Líder). Com o passar dos tempos, esta abordagem absoluta do poder deu lugar a progressivas formas de governo, culminando no mundo moderno.

E é aqui que entra a democracia moderna.

A democracia evolui invariavelmente para uma tirania oligárquica. Uma das maiores ironias do poder popular é que à medida que os sistemas democráticos expandem o seu alcance, maior é o poder concentrado nas mãos de poucos grupos dentro do governo (e não necessariamente aqueles que foram eleitos).

O problema está que quando “as pessoas são elas próprias o Rei”, não há nada que as proteja delas mesmas e daqueles que elegem (especialmente da máquina permanente que nunca muda, apesar da rotatividade dos partidos). Tentativas de constitucionalismo falham sempre porque, como notámos acima, as constituições (sendo abstracções) não criam ou mantêm poder, só se limitam a organizar e distribuir o poder estabelecido até os actores políticos aceitarem em continuar a charada. Quando o jogo começa a descarrilar, descarrila também a relevância das constituições, por mais que o povo acredite no que nelas está escrito.

Por isto é que o homem comum sob a democracia moderna tem menos liberdades verdadeiras e mais restrições no dia-a-dia. Porque tudo culmina, eventualmente, na asfixia do governo democrático. Sem aristocracia para contra balancear as obrigações estatais no cidadão comum, o cidadão sofre de uma potencial regulamentação ilimitada e de uma presença omnipotente do governo no sempre-crescente estado social democrático. Como se pode ver, um rei que está a trezentos quilómetros é muito menos intrometido que três mil réis que estão nos prédios ao lado.

Compreender isto implica uma maior facilidade em explicar o porquê da natureza hipócrita de alguns grupos no actual cenário político. Uma das obsessões da crescente corrente liberal é a supressão dos ‘grupos de interesse’ que injectam capital no sistema de forma a uma presença constante no mercado, quando esses grupos têm gente que injecta quantidades semelhantes nesses e noutros sistemas (nomeadamente na televisão, rádio, e controlo sindical). Quando os “poucos que lucram” não são do grupo a que um pertence, a ganância e a ilusão do jogo política obriga as pessoas a darem-se às mais ridículas discussões partidárias.

Um dos objectivos – aliás, o objectivo primário – do Integralismo, especialmente da sua vertente Lusitana, é o de estar preparado para uma nova Restauração. Esta Restauração envolve, necessariamente, uma mudança de direcção para formas mais autoritárias de governo, pois certo é que não desejaremos repetir os mesmos erros que se vêm agora.
Contudo, é desejável (e até imperativo) que estas formas se alinhem às estruturas aristocráticas tradicionais, reestabelecendo, ao mesmo tempo, a organicidade da interligação mútua do sistema tradicional que protege os “pequenos homens” limitados politicamente dentro desse sistema. O objectivo comum de todo o Português deve ser restaurar a Tradição Portuguesa. Porque o que é tradicional não é bom por ser antigo, é antigo por ser bom.

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